A crise politica em Portugal
atinge picos de histeria, com cambalhotas dignas das maiores artes circenses a
cargo de um Presidente da República que
desocupa o lugar, um Primeiro-Ministro incompetente e politicamente fraquíssimo
e um Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros que é líder do partido
minoritário da coligação e, consequentemente, um malabarista e habilidoso que
enquanto o seu comparsa do Governo e líder do PSD, joga damas, Portas joga
xadrez. Joga xadrez antecipando as consequências, para si e para o seu partido
e não para Portugal e para os Portugueses. Uma jogada partidária ao nível do
artista circense Paulo Portas.
No meio disto tudo, o mundo vive
dias e acontecimentos que devido à sua importância, poderão ter consequências
muito graves e cisões ainda mais severas. Falo, claro, da recusa de Portugal e mais alguns países europeus de aterragem e reabastecimento
ao avião do Presidente da Bolivia, Evo Morales que realizava a viagem de volta
ao seu país, depois de uma visita oficial à Rússia. Essa recusa deveu-se ao
facto de haver suspeita que o avião de
Morales trazia o ex-espião da CIA e NSA (National Security Agency), Edward
Snowden. Uma suspeita completamente injustificada porque não existia nenhum mandato de captura internacional
sobre Snowden, existindo, somente, uma acusação tornada formal pelos
Estados Unidos de espionagem em que o acusado é o ex-espião. Não discuto a legitimidade dos Estados
Unidos o processarem (ficará para mais tarde mas mesmo assim tenho a firme
convicção que as revelações de Snowden são muito mais importantes do que
qualquer ação dos EUA para deter o homem) mas discuto a legitimidade dos países exercerem a sua soberania e portanto
receberem para aterragem e reabastecimento um avião Presidencial, de um Chefe
de Estado que foi eleito no seu país.
Esta subserviência da Europa aos
EUA faz questionar o porquê que a Europa ganhou, não há muitos meses, um prémio
nobel que destaca os esforços em prol da paz, da reconciliação, da democracia e
dos direitos humanos na Europa. Com esta
decisão que pôs em risco a vida de um Chefe de Estado não permitindo a aterragem
e reabastecimento do avião Presidencial Boliviano, o prémio nobel da paz torna-se numa autêntica farsa. De referir que este prémio nobel destaca os esforços passados mas, também
e como é de esperar, a responsabilidade que a União Europeia e a Europa tem na
aplicação dos direitos humanos que estão consagrados nos tratados
historicamente assumidos por estes. Esta
decisão torna o prémio nobel da paz numa mera escolha táctica, quase igual
aquela que atribuiu um prémio nobel da paz a um Chefe de Estado por meras
promessas, sendo a principal o encerramento da cadeia de Guantanamo. Não só
não houve encerramento da cadeia, como esse mesmo Chefe de Estado participou,
de forma direta ou indireta, em conflitos como Egito, Síria ou Líbia bem como
está envolvido neste escândalo de espionagem declarado por Snowden e antes também por
Julian Assange, fundador do Wikileaks. Esse Chefe de Estado é, claro está,
Barack Obama.
Concretamente, este caso de farsa diplomática e falando especificamente
do caso de Portugal, põe em risco quaisquer relações entre Bolívia e Portugal,
relações de ordem económica e de parcerias estratégicas para os dois países e
para a região da América Latina. Este imbróglio já levou ao Presidente
Boliviano a tentar que Portugal esclareça a situação, sendo que Portugal lamenta
mas não pede desculpa. Penso que devido a anos
de fortes repressões e domínio do Norte da América sobre o Sul, com regimes
impostos pelo Norte, explorando economicamente essa região e as suas
potencialidades e recursos naturais, a América do Sul num período de forte
expansão e de forte liderança (Venezuela, Bolívia, Argentina, etc) e de
independência politica e económica relativamente ao Norte da América (EUA),
torna o risco bem verdadeiro no que diz respeito à união dos países da América
Latina numa resposta forte e irrepreensível a esta subserviência de alguns
Estados Europeus. A América do Sul está “descolonizada” e a
irresponsabilidade de Portugal pôs em risco de forma insensata relações com uma
região do mundo que, pela primeira vez, fala como um todo e fortalece-se cada
vez mais contra o imperialismo ideológico que põe em causa direitos que foram
adquiridos e que têm que ser respeitados e não dissimulados por interesses
obscuros e de caça ao homem.