sábado, 6 de julho de 2013

A farsa diplomática pode ser fatal




A crise politica em Portugal atinge picos de histeria, com cambalhotas dignas das maiores artes circenses a cargo de um Presidente da República que desocupa o lugar, um Primeiro-Ministro incompetente e politicamente fraquíssimo e um Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros que é líder do partido minoritário da coligação e, consequentemente, um malabarista e habilidoso que enquanto o seu comparsa do Governo e líder do PSD, joga damas, Portas joga xadrez. Joga xadrez antecipando as consequências, para si e para o seu partido e não para Portugal e para os Portugueses. Uma jogada partidária ao nível do artista circense Paulo Portas.

No meio disto tudo, o mundo vive dias e acontecimentos que devido à sua importância, poderão ter consequências muito graves e cisões ainda mais severas. Falo, claro, da recusa de Portugal e mais alguns países europeus de aterragem e reabastecimento ao avião do Presidente da Bolivia, Evo Morales que realizava a viagem de volta ao seu país, depois de uma visita oficial à Rússia. Essa recusa deveu-se ao facto de haver suspeita que o avião de Morales trazia o ex-espião da CIA e NSA (National Security Agency), Edward Snowden. Uma suspeita completamente injustificada porque não existia nenhum mandato de captura internacional sobre Snowden, existindo, somente, uma acusação tornada formal pelos Estados Unidos de espionagem em que o acusado é o ex-espião. Não discuto a legitimidade dos Estados Unidos o processarem (ficará para mais tarde mas mesmo assim tenho a firme convicção que as revelações de Snowden são muito mais importantes do que qualquer ação dos EUA para deter o homem) mas discuto a legitimidade dos países exercerem a sua soberania e portanto receberem para aterragem e reabastecimento um avião Presidencial, de um Chefe de Estado que foi eleito no seu país

Esta subserviência da Europa aos EUA faz questionar o porquê que a Europa ganhou, não há muitos meses, um prémio nobel que destaca os esforços em prol da paz, da reconciliação, da democracia e dos direitos humanos na Europa. Com esta decisão que pôs em risco a vida de um Chefe de Estado não permitindo a aterragem e reabastecimento do avião Presidencial Boliviano, o prémio nobel da paz torna-se numa autêntica farsa. De referir que este prémio nobel destaca os esforços passados mas, também e como é de esperar, a responsabilidade que a União Europeia e a Europa tem na aplicação dos direitos humanos que estão consagrados nos tratados historicamente assumidos por estes. Esta decisão torna o prémio nobel da paz numa mera escolha táctica, quase igual aquela que atribuiu um prémio nobel da paz a um Chefe de Estado por meras promessas, sendo a principal o encerramento da cadeia de Guantanamo. Não só não houve encerramento da cadeia, como esse mesmo Chefe de Estado participou, de forma direta ou indireta, em conflitos como Egito, Síria ou Líbia bem como está envolvido neste escândalo de espionagem declarado por Snowden e antes também por Julian Assange, fundador do Wikileaks. Esse Chefe de Estado é, claro está, Barack Obama.

Concretamente, este caso de farsa diplomática e falando especificamente do caso de Portugal, põe em risco quaisquer relações entre Bolívia e Portugal, relações de ordem económica e de parcerias estratégicas para os dois países e para a região da América Latina. Este imbróglio já levou ao Presidente Boliviano a tentar que Portugal esclareça a situação, sendo que Portugal lamenta mas não pede desculpa. Penso que devido a anos de fortes repressões e domínio do Norte da América sobre o Sul, com regimes impostos pelo Norte, explorando economicamente essa região e as suas potencialidades e recursos naturais, a América do Sul num período de forte expansão e de forte liderança (Venezuela, Bolívia, Argentina, etc) e de independência politica e económica relativamente ao Norte da América (EUA), torna o risco bem verdadeiro no que diz respeito à união dos países da América Latina numa resposta forte e irrepreensível a esta subserviência de alguns Estados Europeus. A América do Sul está “descolonizada” e a irresponsabilidade de Portugal pôs em risco de forma insensata relações com uma região do mundo que, pela primeira vez, fala como um todo e fortalece-se cada vez mais contra o imperialismo ideológico que põe em causa direitos que foram adquiridos e que têm que ser respeitados e não dissimulados por interesses obscuros e de caça ao homem.