Saíram esta semana dados do INE
(Instituto Nacional de Estatística) sobre o aumento da pobreza em Portugal.
Temos praticamente dois milhões de pessoas no limiar da pobreza, muitos deles
sem apoios sociais, sendo Portugal, nos últimos anos, o país que mais cortou
nos apoios sociais às famílias. Com tudo isto, vem Passos Coelho dizer mais ou menos
o seguinte sobre a Europa: “Não pode haver uns que têm rigor e poupam e
suportar aqueles que andam a gastar”. A enormidade do impacto da declaração é
por si só assustadora mas vindo de uma pessoa que é a responsável número um dos
interesses dos Portugueses, consegue superar qualquer nível de filme de terror
e estupidez, cocktail explosivo.
O primeiro-ministro não sabe, não
quer saber e não lhe interessa saber quais são verdadeiramente os problemas
deste País. Nos últimos três ou quatro anos os rendimentos das pessoas caíram
brutalmente com o desígnio de que era preciso ajustar. Se havia dúvidas do que
era ajustar, esta semana Passos Coelho tirou qualquer dúvida: Ajustar é, sem
qualquer margem para dúvidas, diminuir todo e qualquer rendimento das pessoas
para níveis de empobrecimento incompatíveis com a realidade europeia e até
mundial. Resume-se a: transferência de rendimento das pessoas para o Capital.
Legitimar a crise financeira como sendo afinal uma crise social e, portanto,
necessário ajustar de modo a que crise financeira desapareça. A visão é
totalmente errada pois a ordem das coisas tem necessariamente que ser a inversa.
Consegue-se perceber que o intuito só poderá ser o de tornar o País mais
desigual e conseguir impor uma agenda ideológica que está assente numa vingança
dos tempos áureos dos anos 70 e que estão na base da construção deste País. Uma
agenda ideológica que é contra os “direitos adquiridos” e contra um estado
demasiado “social” e que portanto garante proteção às pessoas. Os ataques
constantes à Constituição (Constituição essa que já foi revista várias vezes
durante os anos) são parte dessa agenda ideológica que não vingou pós-25 de
Abril por razões óbvias. Tínhamos vivido 50 anos de um regime fascista e
portanto de uma ideologia dominante à Direita.
Ou seja, este ajustamento parte
de premissas erradas. Esta agenda ideológica, que tem como propagação o “pagar
o que andas a gastar” e, então, diminuir a dívida (que, ironia das ironias, tem
aumentado), visa montar uma sociedade com diferentes regras, valores e
princípios. Nos tempos que correm, a perigosidade deste pensamento, “queimar a
terra, surgir o Homem Novo” surge como forte seguimento de impor uma nova ordem
social tendo como pressuposto a dívida e o encargo que tivemos, temos e teremos
com ela. Estamos entregues a pessoas perigosas (a nível nacional mas também a
nível europeu) que fazem parte de uma geração partidária que construiu a
Europa. Os partidos socialistas e social-democratas construíram a Europa que
conhecemos mas o seu discurso ideológico neste momento é vazio e entregue a
esta austeridade que serve para impor uma nova ordem social. Este vazio de
ideias tem consequências. A mais visível está bem à nossa frente com o
crescimento dos partidos de extrema-direita, especialmente na França com Marine
Le Pen. A perigosidade dos loucos que governam a Europa e também Portugal torna
a existência de outros loucos que, por sinal, também têm um caminho. Não
esperem é que seja um caminho que nos leve à prosperidade, democracia e paz que
a Europa viveu e conseguiu construir. Os nacionalismos exacerbados por agendas ideológicas do passado são legitimadas pela mediocridade dos políticos do
presente, entregues à sua fantasia e estupidez infinita que nos levam para
caminhos de desespero. Esse desespero está a ser canalizado para respostas do
passado e, ou alguém trava o estilhaço que está bem perto de acontecer, ou
então o estilhaço vai ser duro e terá consequências imprevisíveis.
Não estou a
falar de Portugal por si só, estou a falar de uma comunidade a nível europeu
que se tornará desigual com consequências caóticas. Os mais pobres serão cada
vez mais pobres em circunstâncias críticas e duras e os mais ricos cada vez
mais ricos que não deixarão de levar com as responsabilidades do que se passar
noutras paragens. Temo, porém, que essa responsabilidade fará muito pouco nessa
altura pois a combinação entre responsabilidade e ideologias totalitárias não
ligam entre si. Têm a palavra os loucos de serviço.