quarta-feira, 26 de março de 2014

Se a falta de inteligência pagasse imposto…

Saíram esta semana dados do INE (Instituto Nacional de Estatística) sobre o aumento da pobreza em Portugal. Temos praticamente dois milhões de pessoas no limiar da pobreza, muitos deles sem apoios sociais, sendo Portugal, nos últimos anos, o país que mais cortou nos apoios sociais às famílias. Com tudo isto, vem Passos Coelho dizer mais ou menos o seguinte sobre a Europa: “Não pode haver uns que têm rigor e poupam e suportar aqueles que andam a gastar”. A enormidade do impacto da declaração é por si só assustadora mas vindo de uma pessoa que é a responsável número um dos interesses dos Portugueses, consegue superar qualquer nível de filme de terror e estupidez, cocktail explosivo.

O primeiro-ministro não sabe, não quer saber e não lhe interessa saber quais são verdadeiramente os problemas deste País. Nos últimos três ou quatro anos os rendimentos das pessoas caíram brutalmente com o desígnio de que era preciso ajustar. Se havia dúvidas do que era ajustar, esta semana Passos Coelho tirou qualquer dúvida: Ajustar é, sem qualquer margem para dúvidas, diminuir todo e qualquer rendimento das pessoas para níveis de empobrecimento incompatíveis com a realidade europeia e até mundial. Resume-se a: transferência de rendimento das pessoas para o Capital. Legitimar a crise financeira como sendo afinal uma crise social e, portanto, necessário ajustar de modo a que crise financeira desapareça. A visão é totalmente errada pois a ordem das coisas tem necessariamente que ser a inversa. Consegue-se perceber que o intuito só poderá ser o de tornar o País mais desigual e conseguir impor uma agenda ideológica que está assente numa vingança dos tempos áureos dos anos 70 e que estão na base da construção deste País. Uma agenda ideológica que é contra os “direitos adquiridos” e contra um estado demasiado “social” e que portanto garante proteção às pessoas. Os ataques constantes à Constituição (Constituição essa que já foi revista várias vezes durante os anos) são parte dessa agenda ideológica que não vingou pós-25 de Abril por razões óbvias. Tínhamos vivido 50 anos de um regime fascista e portanto de uma ideologia dominante à Direita.

Ou seja, este ajustamento parte de premissas erradas. Esta agenda ideológica, que tem como propagação o “pagar o que andas a gastar” e, então, diminuir a dívida (que, ironia das ironias, tem aumentado), visa montar uma sociedade com diferentes regras, valores e princípios. Nos tempos que correm, a perigosidade deste pensamento, “queimar a terra, surgir o Homem Novo” surge como forte seguimento de impor uma nova ordem social tendo como pressuposto a dívida e o encargo que tivemos, temos e teremos com ela. Estamos entregues a pessoas perigosas (a nível nacional mas também a nível europeu) que fazem parte de uma geração partidária que construiu a Europa. Os partidos socialistas e social-democratas construíram a Europa que conhecemos mas o seu discurso ideológico neste momento é vazio e entregue a esta austeridade que serve para impor uma nova ordem social. Este vazio de ideias tem consequências. A mais visível está bem à nossa frente com o crescimento dos partidos de extrema-direita, especialmente na França com Marine Le Pen. A perigosidade dos loucos que governam a Europa e também Portugal torna a existência de outros loucos que, por sinal, também têm um caminho. Não esperem é que seja um caminho que nos leve à prosperidade, democracia e paz que a Europa viveu e conseguiu construir. Os nacionalismos exacerbados por agendas ideológicas do passado são legitimadas pela mediocridade dos políticos do presente, entregues à sua fantasia e estupidez infinita que nos levam para caminhos de desespero. Esse desespero está a ser canalizado para respostas do passado e, ou alguém trava o estilhaço que está bem perto de acontecer, ou então o estilhaço vai ser duro e terá consequências imprevisíveis. 

Não estou a falar de Portugal por si só, estou a falar de uma comunidade a nível europeu que se tornará desigual com consequências caóticas. Os mais pobres serão cada vez mais pobres em circunstâncias críticas e duras e os mais ricos cada vez mais ricos que não deixarão de levar com as responsabilidades do que se passar noutras paragens. Temo, porém, que essa responsabilidade fará muito pouco nessa altura pois a combinação entre responsabilidade e ideologias totalitárias não ligam entre si. Têm a palavra os loucos de serviço.

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