segunda-feira, 15 de abril de 2013

A crise da simplicidade


"If you can’t explain it simply, you don’t understand it well enough" – Albert Einstein

A frase é de Albert Einstein, e é mais contemporânea e correta do que nunca encaixando absolutamente nos dias em que vivemos. A nossa sociedade (concentro-me, sobretudo, na realidade portuguesa que foi, é e será cada vez mais englobada numa realidade mundial) está absorvida nesta turbulência de uma revolução em curso, revolução essa que é materializada numa era que não pode ter como resposta mecanismos e procedimentos de eras anteriores. A ordem não pode ser a de regredir mas antes uma nova forma de concetualização que não se abstraia da complexidade com que nos deparamos atualmente.

Temos o mundo das finanças a invadir o nosso mundo (o mundo das pequenas coisas, aquele que realmente nos interessa) e a forçar-nos (como sociedade) a responder aos desafios atuais e futuros com mecanismos e procedimentos do passado. Responder, portanto, a estes novos desafios que possuem uma enorme complexidade, através de soluções com um nível de complexidade menor porque foram, obviamente, aplicadas a situações passadas, onde o mundo requeria respostas diferentes, a realidades necessariamente diferentes. Não se pode aplicar o passado ao futuro, por si só.

Pois, vendo bem, isto era passado. Neste ponto, chegamos ao que refere Einstein. A nossa realidade atual é composta por uma incerteza crescente devido a não possuirmos uma resposta coerente, afirmativa, contundente aos desafios que temos. Quando se fala em incerteza, fala-se em situações onde não temos compreensão plena sobre algo porque não conseguimos explicar. Para conseguirmos explicar algo, temos de compreender esse algo. Portanto, para compreender esse tal algo que possui um nível de incerteza crescente e com uma enorme volatilidade, precisamos de novas concetualizações do mundo, novas formas de o descrever, interpretar, explicar. Existem significados a atribuir para novos fenómenos que acontecem na nossa realidade que não podem ser respondidos com procedimentos de uma revolução anterior. Passando a redundância, a complexidade é complexa e para a compreendermos na sua plenitude são necessárias várias ‘complexidadezinhas’, até chegarmos ao nível mais simples e obtermos respostas concretas e definíveis aos desafios que possuem o tal nível de incerteza que encerra os dias de hoje.

Por outras palavras, o enquadramento que advém da nossa história e daquilo que é passado, sobretudo, da revolução e era industrial, está obsoleto e não responde a nenhum dos desafios atuais e futuros da nossa sociedade. É claro que precisamos de compreender a importância da história porque é, sobretudo, da história que advém a complexidade que vivemos hoje. Ou seja, são as diversas complexidades dos diversos momentos da história que nos trouxeram aos grandes desafios que vivemos. Essa compreensão necessita de ser feita, com uma cultura social e política que nos faça perceber que existiram momentos na história onde grandes líderes e grandes pensadores moldaram o mundo. Responderam, portanto, aos seus desafios, compreendendo a história anterior mas sempre com uma visão definida que os pudesse levar a respostas concretas baseadas na alteração do status quo atual. 

Vive-se a era da informação, onde as tecnologias e sobretudo o valor da informação comandam a economia e tendem a elevar a necessidade de adaptação. Temos, portanto, um nível de complexidade adicional em virtude da volatilidade e incerteza desses desafios que merecem uma resposta, não baseada em mecanismos que incorporam realidades do passado, mas sim com mecanismos do presente e futuro que são embebidos da história e cultura do passado. Precisa-se de revestir a nossa realidade para que esses novos mecanismos a criar sejam os ideais para explicar a complexidade existente através das várias ‘complexidadezinhas’ e atravessarmos os vários níveis de abstração que englobam a incerteza que invade a nossa sociedade. Para conseguirmos esses novos mecanismos que alterem o status quo e que necessitam de ser embebidos de uma cultura e conhecimento da história que nos explica como chegamos aqui, é necessário possuirmos líderes fortes, que tenham essa cultura e conhecimento histórico e que a transmitam da melhor forma possível.

Reafirmo a importância de conhecer profundamente esses enquadramentos passados da nossa sociedade para que o novo enquadramento a conceber seja robusto, a fim de responder da melhor forma aos desafios que se apresentam. Não vale a pena empregar formas de resposta passadas a problemas atuais. Precisamos de novas respostas revestidas pelas anteriores, ou seja, descobrir uma nova camada que revista a outra e enquadre as nossas respostas e as molde aos desafios que a sociedade enfrenta. As receitas anteriores são úteis mas não são decisivas. Vive-se uma revolução (a nível planetário e que afeta a realidade em que vivemos) que necessita de culminar numa nova etapa da nossa civilização e que tem que ser composta pelas receitas passadas (úteis) que nos ajudem a encontrar uma nova receita que, essa sim, seja decisiva e desmantele a complexidade dos nossos desafios. Sim, para além de necessitarmos de conhecimento, cultura, liderança, decisão, necessitamos também de algo muito mais simples (essa simplicidade que Einstein realça) mas, ao mesmo tempo, muito difícil de obter: Bom senso. Os nossos desafios necessitam de respostas com um nível considerável de bom senso a fim de encontrar a explicação mais simples para os nossos problemas. Se isso não acontecer, não só, não compreendemos os nossos problemas como também não encontramos respostas. Poderemos, então, continuar com um nível de incerteza insustentável sendo que o resultado da nova etapa da nossa civilização continuará por alcançar, comprovando que a revolução em curso servirá de pouco.

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