Enquadramento - Relação devedor-credor:
Portugal (países do sul) versus Alemanha (países do norte, Fundo Monetário
Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia)
É claro como água que a relação devedor-credor,
não pode e nem deve ser de consenso e de unanimidade. Tanto se fala de alinhar
estratégias para reformar o país e tendo em conta a retórica de alguns de que vivíamos
“acima das nossas possibilidades”, a linha
de orientação desvanece à medida que se avança: para além de programas de
ajustamento que servem, sobretudo, para colocarmos as contas públicas em ordem,
precisa-se, urgentemente, de definir a relação que queremos ter com os nossos
credores. Os credores norteiam as suas ações mediante os interesses que
querem ver respondidos. Emprestaram e emprestam dinheiro, querendo recebê-lo de
volta com juros. É isto que eles defendem. Adiciona-se uma outra variável:
estes credores com que nos defrontamos têm uma agenda ideológica que prolifera na Europa e que “descontrolou” a crise
das dívidas soberanas. Para responder a esta agenda ideológica encapuçada
que não foi a votos, nem responde às necessidades de nenhum país nem comunidade,
mas antes aos interesses de determinados bancos, precisamos de um governo que defenda os interesses de Portugal e que se
posicione, definitivamente, como devedor. Quem se encontra na posição de devedor, está numa posição de negociação e tem que exercer
esse poder a fim de defender os interesses da comunidade que representa,
aquela que é a razão de existir dos governantes, ou seja, os governados.
O está a acontecer é que a
resposta que tinha que ser baseada nesta relação devedor-credor, está a ser
tudo menos alguma relação. Tendo em conta que a dívida de Portugal é impagável
(atualmente 123% da riqueza que Portugal produz num ano), é necessário estabelecer um “braço de ferro”
com os credores, na ótica de haver uma verdadeira negociação e de exercitarmos
a relação que coloca dos dois lados da barricada, respetivamente, credores e
devedores. Interesses diferentes, âmbitos diferentes. Claro que para isso
acontecer, é preciso que alguém defenda os nossos interesses, aqueles
interesses que justificam o poder delegado pelas eleições aos governantes, mas
que rapidamente se esqueceram de defender. E como não existe esse alguém
(Passos e Gaspar são mais troikistas do que a própria troika, não tenhamos
dúvidas) os portugueses estão condenados a esta política suicida de “bons alunos” que os credores valorizam. Como
devedores, é necessário outra postura,
não de “maus alunos”, mas uma postura de “alunos interventivos e participativos”.
Temos algo a defender porque o povo português votou neste governo e não em
nenhum banco/projeto/líder europeu. Não façam chantagem com a possibilidade
de não haver dinheiro para pagar salários e pensões. Isso são as desculpas utilizadas para não atuarmos em
conformidade a fim de defendermos a nossa posição, enfrentando aqueles a quem
devemos e que, no final de contas, nos podem financiar.
Falta coragem e autoridade para
assumir uma posição. E essa falta de coragem e autoridade ocorre porque essa
posição requer um “braço de ferro” cerrado com aqueles que mandam nos
interesses Europeus, maioritariamente alemães. Para assumir essa posição, tem que se ter em conta as consequências
que dessa posição poderão advir. Uma delas é a saída do Euro, se a tal negociação não correr de feição aos nossos
interesses, coisa que não é obviamente conhecida e que não está confirmada. Esta possível consequência é complexa e
imprevisível mas não pode ser um tema tabu na nossa agenda política atual.
Poderá, por outro lado, possibilitar-nos uma política de maior expansionismo
económico, coisa que neste momento no panorama Europeu está fora de questão.
Obviamente que quem não quer assumir riscos e anda na vida pública e política
para se servir dela, opinando sobre determinados interesses que não os dos
portugueses, não pode assumir este desígnio de ser líder neste grave momento da
nossa história. O momento exige uma
irrepreensível resposta à altura dos nossos desafios. Temos o momento, temos os
desafios, falta-nos a irrepreensível resposta.
Sem comentários:
Enviar um comentário